Sobre cristianismo, armas e eleições

Em tempos sombrios, é inaceitável que os valores cristãos sejam pervertidos na tentativa de embasar "propostas" de um Brasil fadado ao primitivismo, à intolerância, ao desamor e ao desrespeito ao próximo.

Por Filipe Andrade 28/08/2018 - 12:46 hs

Que o Brasil vive, atualmente, um período turbulento do ponto de vista social e moral não há dúvidas. Agora, utilizar desses argumentos para evocar um extremismo raivoso e populista é apelar ao mais vil tipo de oportunismo - daquele que se alimenta da ignorância alheia e continua a alimentá-la.

Sim, sou cristão desde que nasci, assim como meus pais e avós, e o sou não por tradição apenas, mas, entre outras convicções, porque acredito que os valores pregados pelo cristianismo podem contribuir para a construção de uma sociedade mais solidária e altruísta. Há quem discorde e, como cristão, é meu dever respeitar qualquer opinião contrária.

Mas é óbvio, por outro lado, que não posso concordar e aceitar que os valores em que fui ensinado sejam pervertidos na tentativa de embasar "propostas" de um Brasil fadado ao primitivismo, à intolerância, ao desamor e ao desrespeito ao próximo.

Vamos lá!

Não, a Bíblia não tem o livro de Paulo, mas um conjunto de 13 cartas escritas por ele (com a probabilidade de haver uma 14ª - não há consenso) e em nenhuma há qualquer insinuação, por mais sutil que seja, de que os cristãos devem "vender suas capas para comprar espadas".

É Paulo, inclusive, quem resume todos os preceitos bíblicos que são a base do cristianismo, citando o mandamento divino: "Tu amarás ao teu próximo como a ti mesmo".

Não, não é ARMAR o próximo, é amá-lo. Mesmo que sofra ou seja odiado, devo amar; mesmo quando sou prejudicado, devo amar ao ponto de, se necessário, "oferecer a outra face". Ah, e não vale agredir de volta!

Àqueles que insistem em lançar mão da espada (ou do fuzil, como querem alguns), Jesus, o Cristo (aquele que foi torturado e condenado à morte em um tribunal de exceção, lembra?), foi enfático: "Porque todos os que lançarem mão da espada, hão de perecer com a espada".

Para terminar, permitam-me mais um trecho bíblico, também escrito por Paulo: "Não revidem, descubram a beleza que há em todos. [...] não insistam na vingança; ela não pertence a vocês. [...] as escrituras recomendam que, se você vir seu inimigo com fome, ofereça-lhe um bom almoço; se estiver com sede, dê-lhe de beber. [...] não permita que o mal vença em sua vida, mas vença o mal com a prática do bem".

Em resumo, nessas eleições (e na vida), vale o conselho de vó: Vamos desejar aos outros apenas aquilo que desejamos a nós mesmos; e que seja apenas o bem pois, afinal, um dia colheremos aquilo que plantarmos.